Decio

Diretor brasileiro Décio Lopes conta o que esperar da premiere do filme Making History

O documentário Making History (Fazendo História), que abre o prestigiado Orlando Film Festival, nessa quarta-feira, 21 de outubro, conta como tudo começou para o Orlando City. O filme, escrito e dirigido pelo brasileiro Décio Lopes, estreia às 18h30, no horário local, no Cobb Plaza Cinema Café, na região central de Orlando. Ingressos estão disponíveis clicando aqui.  Logo após a premiere de "Making History", Décio Lopes participará de uma sessão de perguntas e respostas aberta ao publico. Mas o OrlandoCitySC.com antecipa aqui um pouco do que o diretor tem para contar a respeito desse documento histórico para os torcedores dos Lions.

Atual diretor de novos negócios do clube, Décio revelou em entrevista como surgiu a ideia de mostrar aos fãs a realização de um sonho, que começou em uma conversa, em uma mesa de cozinha na cidade de Austin, no estado norte-americano do Texas. O brasileiro, que trabalhou durante seis anos como documentarista da seleção brasileira, tendo atuado ainda por 24 anos como jornalista, produtor e empresário do ramo de televisão no Brasil, conta também como costurou o passado, o presente e o futuro do clube com o registro de um momento histórico para o futebol nos Estados Unidos, a estreia do Orlando City na Major League Soccer (MLS), no dia 8 de março de 2015, com Kaká em campo e o estádio Orlando Citrus Bowl lotado por 62,5 torcedores, em uma demonstração de amor pelo clube e pela cidade, transmitida ao vivo em rede nacional de televisão e outros 100 países ao redor do mundo.

OC.com - Como foi para você a realização desse filme e o fato dele já ter sido incluído de cara no Orlando Film Festival?

DL: Foi excelente. Uma surpresa excelente. O meu objetivo inicialmente era esse. Vivo no futebol há maios ou menos 25 anos. Comecei fazendo reportagem na Globo como repórter do Globo Esporte em 1990, então eu vivo no futebol há muitos anos, e de repente eu cheguei aqui nos EUA e vi um grande momento prestes a acontecer, que seria o sonho de todo torcedor pelo mundo, de ver o primeiro jogo de um clube em uma liga. Eu imagino isso daqui 50 anos, 80 anos, 100 anos, que alegria, que felicidade o torcedor vai ter de ver esse momento, de ter esse momento documentado. Como eu gostaria de ter isso em relação ao meu time no Brasil! Imagine os brasileiros poderem ver o primeiro jogo da história de um Corinthians, de um Fluminense, de um Flamengo, de um Cruzeiro. E nós estávamos prestes a ver esse momento acontecer, e foi aí que veio a ideia de registrar isso. Não é por mim, nem pelo Flávio (Augusto da Silva, proprietário do Orlando City), nem pelo presidente (Phil Rawlins), é para a história, para dar um presente para as próximas gerações. Imagina que legal vai ser se eles puderem ver isso daqui uns anos! 

E aí veio a seleção para o Orlando Film Festival, que foi uma notícia maravilhosa, sensacional, e também a notícia que a gente vai abrir o festival e que vão ter 7 salas exibindo o nosso filme em 3 sessões consecutivas, devido à procura. Foi uma sucessão de boas surpresas e uma alegria muito grande, mas a maior satisfação é saber que daqui 80 anos, um fã vai poder conhecer as pessoas que formaram esse clube e saber como foi o processo para ele nascer e como foi o primeiro jogo da história desse clube.

OC.com - Você falou de clubes centenários e quão interessante seria se tivéssemos um documento do início de cada um deles. Você acha que esse filme humaniza um clube de futebol?

DL: Eu acho que sim. Esse é o grande objetivo, mostrar que embora a gente tenha um monte de procedimentos, que a gente tem que seguir a indústria do entretenimento, a gente tem que ter um padrão empresarial em todo esse negócio, a força disso tudo é a paixão, é o ser humano, é o prazer de estar ali, de dividir aqueles momentos, de ver aquelas coisas acontecendo. Acho que era isso que a gente não podia perder a oportunidade, a gente tinha que mostrar isso para as pessoas, e muito mais do que para a gente, mas para as gerações futuras. O que mais me comove é mostrar para todo mundo que tudo começa com uma paixão, tudo começa pelo prazer das pessoas de juntarem os amigos em torno de uma ideia, de um grande objetivo.

OC.com - Para você, que escreveu o roteiro, dirigiu o filme, fez as entrevistas pessoalmente, qual é o ponto alto do filme?

DL: Eu acho que a emoção, a paixão. Acho que o ponto alto é esse, que todo negócio, toda realização esportiva, toda realização da nossa vida começa com uma paixão. E isso foi o que eu identifiquei entre todos eles. Todas as pessoas que deram algum depoimento, jogadores, treinador, o ponto comum que eu achei em todos eles foi a paixão. Eu não diria que uma entrevista é melhor que a outra, que uma imagem é melhor que a outra, mas o que realmente mais me toca nesse filme é o momento em que cada um dos entrevistados expressa suas emoções, seus sentimentos.

OC.com - Você diria que tem muito mais coisas naquele 8 de março que esse filme vai revelar do que a gente já pôde ver, por exemplo, pela televisão ou do que aqueles 62,5 mil na arquibancada viram?  

DLSem dúvida. Não só pela quantidade de câmeras, não só por estar dentro do vestiário, por estar dentro do campo, por estar também na tribuna do proprietário, acompanhando o jogo com ele lá em cima, mas principalmente porque já há uma perspectiva de tempo. Porque as coisas se passaram há algum tempo, não só aquela euforia, aquele entusiasmo do primeiro momento, agora a gente já consegue ver as coisas com uma perspectiva de tempo e isso nos traz um olhar completamente diferente. Eu tenho certeza que você, quando assistir, vai ver o jogo de uma maneira completamente diferente do que você viu naquele dia, daquele turbilhão de sensações, naquela correria e que ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo. Então é com essa perspectiva que você vê o quanto aquilo foi bonito, o quanto foi grandioso e que realmente foi um momento para a história. Eu acho que fica claro isso, aquele dia foi um dia para a história e eu acho que esse clube vai chegar aos seus 50, 60, 100 anos, como os times do Brasil, da Inglaterra, da Argentina e aquele primeiro momento vai estar registrado. Essa é a maior alegria para mim. Acho que o filme constrói o seguinte diálogo: passado, presente, futuro. Porque o torcedor de hoje está entendendo como o clube nasceu numa mesa de cozinha, ele está entendendo como o clube nasceu lá no Texas, ele está ouvindo histórias das pessoas que participaram daquele momento em que isso não passava de uma ideia. Assim é criado o diálogo do presente com o passado, que é sempre muito rico e interessante, e cria o diálogo com o futuro. Eu fiz questão de abrir essa possibilidade para as pessoas de agora falarem com os fãs do futuro, o que, para mim, é o mais fascinante disso tudo. Embora a gente não vá aproveitar esse momento, se Deus quiser ele vai acontecer. Daqui 80 anos, eu não vou nem estar aqui, ninguém vai nem saber que eu passei por aqui, mas o fã vai ver aquilo. E aquilo vai tocar as pessoas. O mais legal de fazer esporte, de fazer arte, de viver, é você causar emoções, é você saber que mesmo que você não vá ver aquele momento, daqui 50 anos algumas pessoas vão se emocionar com isso.

OC.com - Você construiu uma carreira brilhante no Brasil, estava muito bem estabelecido com sua própria empresa, realizando diversos projetos na TV brasileira. Por que decidiu mudar-se para Orlando, para juntar-se a um projeto em fase inicial, antes de saber daquilo tudo que ia acontecer no dia 8 de março e nos meses a seguir?

DL: Eu volto ao tema inicial: Paixão. Quando o (CEO do Orlando City) Alex Leitão e o (vice-presidente de novos negócios) Fred Pollastri vieram me falar desse projeto, lá no Rio de Janeiro, acendeu uma luz e eu achei aquilo muito legal. Quem não quer participar de um momento como esse? Um clube que está começando, não fez nem seu primeiro jogo ainda e que tem desafios enormes, ambições enormes e que quer ser uma potência global, que quer marcar época, quer fazer história no futebol que é o esporte que eu mais amo, com o Kaká, que é um jogador que, além de acompanhar a carreira dele de perto há muitos anos, é um ídolo. 

Essa primeira temporada foi isso, foi viver esse momento de uma maneira intensa e aprender, acertar, errar e estar mais convicto de que é um projeto vitorioso e que vai construir muita coisa bacana para essa comunidade, para essa cidade, inclusive para os brasileiros que vivem aqui, que também vão ter esse orgulho de ter um clube, que é propriedade de um brasileiro e que tem como grande ídolo um brasileiro. Um clube que se relaciona muito bem com o Brasil, está o tempo todo presente na mídia brasileira, e que quer ter esse diálogo com o Brasil. É uma satisfação. A sensação não foi “que legal seria”, mas sim “não posso ficar fora disso”.

OC.com - Você acredita que faça parte hoje de um projeto inovador? Que a MLS e o Orlando City vão inspirar mudanças ao redor do mundo na forma com que o esporte é estruturado hoje? 

DL: Eu não tenho dúvida. É o maior esporte do mundo alcançando finalmente o maior mercado do mundo. Foi um encontro pelo qual se esperou durante décadas, que foi trabalhado durante décadas, que houve tentativas durante décadas e que finalmente aconteceu, finalmente a gente vê o maior esporte do mundo aceito, sendo curtido no maior mercado do mundo. Então é novo, é inovador. A gente tem que prestar atenção nos mercados maduros, tem que prestar atenção no futebol brasileiro, argentino, inglês, alemão e em todas as ligas poderosas do mundo, mas eu tenho certeza que aqui é diferente. O formato do calendário é diferente, a percepção de futebol é diferente, o comportamento do torcedor é diferente, é único. Pegar a experiência dos esportes profissionais americanos que são inegavelmente muito bem-sucedidos e unir com a história do futebol é uma coisa nova, uma coisa muito bacana que está dando certo. Finalmente esse encontro aconteceu e a liga vai ser uma das maiores do mundo em pouco tempo.